Fran Laviada

Capítulo III

GROUCHO EM ESPÍRITO

Capítulo III
Capítulo III Fran Laviada

—É o senhor Groucho Marx?

—Sou eu mesmo, cavalheiro.

—Mas o que me diz, homem? Se o senhor já morreu há muitos anos!

—Pois sabe o que lhe digo, amigo? Não se fie nas aparências, nem dê ouvidos a tudo o que lhe dizem. As pessoas mentem muito. Só o estou a avisar. É livre de acreditar no que bem entender.

—Não, eu acredito em si, aliás, estou quase convencido de que é o Groucho Marx! O rosto, claro, é o mesmo, e parece-me que o senhor se expressa tal como ele. Por isso, não tenho por que duvidar. O senhor é, sem dúvida, o Groucho.

—Fico contente por confiar em mim, meu caro amigo! Verá, ao longo da nossa conversa —que espero que seja longa e proveitosa, sobretudo para si, que é muito mais jovem do que eu e, portanto, tem mais a aprender— que irá confirmando que sou quem digo ser.

—Parece-me perfeito. Prazer em conhecê-lo em pessoa, senhor Marx. Devo dizer-lhe, aproveitando este momento inesperado, que sempre fui um grande admirador seu e dos seus irmãos. Vi todos os seus filmes e, no que lhe diz respeito, também li quase todos os seus livros.

—Esplêndido, um admirador! Assim dá gosto voltar a dar uma volta pela Terra. Sabe sempre muito bem ser bem recebido após tanto tempo de ausência!

—Perdoe o meu atrevimento, senhor Marx! Mas o senhor... está vivo, morto, é um fantasma ou reencarnou de novo em si mesmo?

—Ora essa, meu caro amigo, vejo que é uma pessoa muito curiosa! Mas bom, demos tempo ao tempo. Embora talvez o que eu seja seja o de menos; o que conta é a conversa que possamos manter e as conclusões que tiremos. E perdoe que lho repita: o senhor tirará, sem dúvida, mais proveito do que eu, embora não duvide que eu também possa lucrar algo com o que tiver para me dizer. Estás a perceber-me, jovem?

—Sim, senhor Marx, com total clareza! E por sinal, prefiro que me trate por tu, sinto-me mais à vontade. Eu, como é óbvio, respeito-o muito, por isso continuarei a tratá-lo por o senhor. Perdoe a redundância.

—Descansa, amigo! Eu, apesar da minha idade, sinto-me jovem. Aliás, creio que esta viagem provisória de volta à Terra me tirou uns quantos anos de cima, por isso podes tratar-me por tu, como eu estou a fazer contigo agora. Podes chamar-me Julius.

—Pois o senhor... perdão, quis dizer tu!, podes chamar-me Paquito. É como me conhecem a minha família e os meus amigos.

—Pois muito prazer, Paquito!

—Muito prazer, Julius!

—Se isto fosse uma cena de um filme dos que fiz com os meus irmãos, o Harpo saudaria tocando a buzina. 

Moc, Moc, Moc…!

I I 

—Se não te importas, Julius, embora tenhamos muito de que falar, gostava de saber bastantes coisas tuas; nada de questões pessoais, claro, essas pertencem à intimidade da tua vida privada.

—Não te preocupes, rapaz, dispara! Não tenho nada a esconder, mas só responderei ao que me apetecer.

—Com certeza, Julius, faltaria mais!

—Também devo dizer-te que nem tudo o que se conta sobre mim é verdade, inclusive certas frases que dizem que eu proferi e não foi o caso. Mas bom, isso pouco importa agora. O que conta é o presente. O aqui e agora. Não achas?

—Sim, concordo contigo!

—Esplêndido, então! Diz de tua justiça. Embora deva avisar-te que, às vezes, a imaginação dispara e começo a interpretar, recordando a minha época de ator, e posso inventar umas mentirinhas, porque me diverte e, como já não treino a criatividade há algum tempo, talvez me faça bem desenvolver um pouco de ficção, como se estivesse a escrever o guião de um filme, uma cena para uma comédia teatral, ou até um livro. Não sei, improvisarei à medida que formos falando.

—Perfeito, Julius, o que decidires serve-me perfeitamente. Para mim já é uma honra tremenda estar aqui neste momento e poder falar contigo de igual para igual!

—Paquito, não sejas modesto, rapaz! Sou um ser humano como qualquer outro; não de carne e osso como fui, mas bom, em espírito sou o mesmo de sempre —um homem, talvez um pouco peculiar, mas um homem, afinal de contas.

—Está bem, Julius. Gostava de começar por te perguntar se é verdade que, certa vez, quando viajaste à Alemanha, visitaste o bunker de Hitler e dançaste lá dentro.

—Ah, ah, ah…! Não esperava essa pergunta, Paquito. Pois sim, dancei uma espécie de charleston, mas parece que as pessoas que me acompanhavam não acharam muita piada. O que nunca soube foi a causa. Não sei se foi por eu ter dançado mal, ou se por quem me acompanhava ser nazi e admirar o Hitler, achando uma ofensa eu gozar com o Führer na que fora a sua última morada, ou se calhar foi simplesmente porque os alemães são demasiado sérios para apreciarem o meu sentido de humor. Mas foi o que aconteceu, Paquito.

—Mas como é que te lembraste da dança?

—Pois é muito simples. A zona onde ficava o bunker de Hitler estava rodeada de escombros. Subi por eles como pude, uns cinco metros mais ou menos, e quando cheguei lá acima, dei-lhe no charleston. Foi algo improvisado, embora reconheça que irreverente, mas eu sou assim.

—Creio que gostavas muito de tocar guitarra. É verdade?

—Pois sim, adorava. Além disso, tornei-me amigo de um grande mestre da guitarra clássica, um compatriota teu chamado Andrés Segovia, que até me deu umas pequenas aulas que me serviram de muito.

—É verdade que o Federico Fellini te convidou para entrares num dos seus filmes?

—Sim, mas a verdade é que não me apetecia muito na altura, embora reconheça que, nesse tempo, ele era considerado um dos melhores realizadores do mundo —e, de facto, os especialistas continuam a avaliá-lo assim. Mas as coisas, para serem verdadeiramente desfrutadas, têm de ser feitas quando a pessoa realmente quer, e naqueles momentos trabalhar com o amigo Federico não estava entre as minhas prioridades. Não achas que tenho razão?

—Concordo totalmente contigo, Julius.

—Ouve lá, Paquito! Que tal fazermos uma pequena pausa? Apetece-me relaxar um pouco e tomar um café.

—Por mim, sem problemas, fazemos o que preferires!

—Com amigos como tu, dá gosto, moço!

—Eu também vou tomar um cafezinho, Julius!

—Então vamos a isso, rapaz!

Após uns trinta minutos de pausa e um par de cafés para cada um, ambos os interlocutores continuaram a falar, como se costuma dizer, sobre o humano e o divino, embora no caso presente talvez fosse mais exato dizer quimérico, ou até alucinante; mas bom, pouco importa o adjetivo, centremo-nos antes no relato.

No fim, tanto falar pode chegar a ser esgotante —é o que dá dar ao chinelo sem parar, e nisso o Groucho era um autêntico especialista. O Paquito, como bom aluno, também não ficava atrás. Chegou um momento em que o esgotamento dialético exigia uma pausa, e ambos decidiram adiar a interessante conversa para o dia seguinte, em que haveria tempo suficiente para prosseguir o diálogo e para que Julius (Groucho), com a sua verborreia desenfreada, continuasse a contar a um atónito e, ao mesmo tempo, entusiasmado Paquito todo o tipo de anedotas da sua vida apaixonante, que possuía todos os ingredientes necessários para ser tudo menos aborrecida.

I I I

E, como seria de esperar, a conversa (impossível, imaginária ou real, nunca se saberá, nem jamais o poderemos descobrir) entre Julius e Paquito continuou. Mas desta vez foi o primeiro que, sem que o segundo lhe perguntasse nada, começou a falar sem parar, enquanto o jovem ficava imóvel, sem abrir a boca, e totalmente atento ao que o seu admirado Groucho lhe contava.

—Meu caro Paquito!, ouve com atenção, porque vou contar-te algumas coisas da minha vida que talvez não saibas, ou que talvez tenhas ouvido alguém contar e sejam mentiras, ou ainda que tenhas lido coisas sobre mim que não são certas. Mas isso pouco importa; o que vale é o que te vou contar agora. Chama-lhe anedotas, se quiseres, ou o que te der na gana. São apenas pequenos relatos soltos de algumas coisas que vivi. Por exemplo, sabias que eu e os meus irmãos estivemos prestes a rodar um filme com o grande Billy Wilder? (Um autêntico fenómeno como realizador, que filmou obras míticas e extraordinárias como Sunset Boulevard, Quanto Mais Quente Melhor, Testemunha de Acusação, O Apartamento, O Pecado Mora ao Lado e tantos outros). Creio que foi em 1960. Estávamos todos de acordo e ia marcar o regresso dos Irmãos Marx ao mundo do cinema, e pela porta grande, mas no fim não pôde ser. Além disso, no ano seguinte, infelizmente, o Chico morreu (embora no nosso universo particular diríamos antes que passou para outra dimensão), por isso o projeto foi-se.

Também gostava de te contar a história do meu bigode, que se tornou quase tão famoso como eu. No início, as pessoas pensavam que o bigode era de verdade, embora o facto fosse que era postiço. Mas um dia, atrasei-me para uma atuação que ia fazer no teatro e não tinha muito tempo antes de entrar em cena. A cola para o bigode não aparecia em lado nenhum e não tive outro remédio senão pintá-lo com graxa, e assim continuou durante muito tempo, até que decidi deixar crescer para sempre um de verdade, ou seja, de pelo próprio. Era muito mais cómodo e, a partir daí, poupei bastante dinheiro em graxa, tal como antes o tinha poupado em cola. Chama-me tacaio se quiseres, mas deve evitar-se desperdiçar dinheiro sempre que se pode!

Outra anedota que gostava de te contar é que no ano de... bom, não me lembro agora mesmo, mas não interessa. O caso é que rodámos um filme mudo, o único que fizemos, intitulado Humorisk. Pois bem, o curioso do assunto é que esse filme jamais foi estreado, porque desapareceu. Ninguém sabe como, mas nunca mais soubemos dele. É como se um dia de manhã a tua mulher discutisse contigo, saísse de casa e já não voltasse para o almoço, nem para o jantar (o que não é nada mau, se já estivesses farto dela). Desaparecida para sempre. Pois o mesmo com o filme. Embora as más línguas me tenham acusado de o ter feito desaparecer, ou melhor, de ter queimado o negativo por não ter gostado de como ficou na montagem final. Nada disso, não é verdade. Acusaram-me de ser um vulgar pirómano, uma espécie de Nero cinematográfico. Que barbaridade, o que as pessoas são capazes de inventar para terem de que falar!

—Ora bem, Paquito, já vejo que estás muito calado, isso quer dizer que achas interessante tudo o que te estou a contar. Talvez te surpreenda um pouco que todas as minhas histórias andem para a frente e para trás no tempo, ou seja, que não sigam uma ordem cronológica, mas tens de ter em conta que, na minha idade, a memória falha às vezes. No entanto, lembro-me de quase tudo o que aconteceu na minha vida (por vezes tenho certos lapsos), exceto do mau, já que tento sempre esquecer isso. Embora seja inevitável que apareça o desmancha-prazeres do costume para me melgar, recordando coisas das quais não quero saber nunca mais.

O que te vou contando é o que vai chegando do arquivo que tenho no cérebro, mas as pastas estão um pouco desarrumadas, por isso pode haver uma grande diferença de anos entre uma história ou anedota a que me refiro e a seguinte.

—Não te preocupes, Julius, por mim já sabes que não há problema. Estou encantadíssimo por estar aqui a ouvir tudo o que me contas com a máxima atenção!

—Assim dá gosto, rapaz! O melhor que pode acontecer a um artista é conseguir que o público esteja completamente entregue à causa; sendo assim, o sucesso é garantido. Portanto, continuo, embora antes me vás perdoar, Paquito, necessito de ir à casa de banho. Já sabes que na minha idade a próstata é uma cabra e costuma chatear, infelizmente, com demasiada frequência. Lamento ser tão contundente na forma de me expressar, mas é a pura realidade. Envelhecer é o que tem.

—Com certeza, Julius, faltaria mais! Creio que eu também preciso de fazer xixi, por isso acompanho-te…

Glu, glu, glu…! Chop, chop, chop…! Chu, chu, chu…! Plic, ploc, ploc…! (As variantes do ruído dependem da intensidade da micção de um e de outro).

E depois: Gluglú, gluglú, gluglú…! Ou seja, o líquido vai cano abaixo. Reproduzir o som de puxar o autoclismo já é mais complicado, por isso, deixamo-lo à livre imaginação do leitor. E em todo o caso, convidamos quem estiver interessado em descobrir sonoridades iguais ou parecidas ao caso mencionado a utilizar a informação disponível em diferentes dicionários onomatopeicos de uso frequente.

IV

—Que bem que a gente fica depois de uma boa mijadela! Embora a partir de certa idade fosse melhor ficarmo-nos pela simples mijadela, e já é uma sorte! Os tempos do jato potente ficaram lá muito atrás!

—Ah, ah, ah… de certeza que sim, Julius!

—Bom, Paquito, vamos continuar a conversar, mas pergunta-me tu alguma coisa, porque creio que, sem dar por isso, estou a monopolizar a conversa e não quero ser egoísta. Por isso, diz-me o que queres saber, ou do que te apetece falar.

—Julius, tinha pensado que, se não te importas, gostava de te perguntar coisas sobre temas específicos para saber a tua opinião.

—Pois dispara já, moço, estou a ouvir-te!

—Ok. Vou dizendo um tema e tu respondes. 

Para começar, gostava que me falasses do amor e das conclusões que tiraste ao longo da vida, fruto das experiências que tiveste com as mulheres.

—Sem dúvida, um tema interessante, rapaz, gosto! Vamos a isso. O amor, Paquito, muitos confundem-no com uma dor de barriga ou, pior ainda, com uma diarreia. E quando esse mal-estar passa, julgam que estão curados... mas então casam-se, e aí já não há remédio, salvo se se recorrer ao divórcio, que é o único método possível para solucionar o sarilho. Daí que não seja difícil deduzir que a principal causa de um divórcio tem sempre a sua origem, precisamente, no matrimónio. Bem, creio que me entendes, não é verdade, Paquito? É que às vezes posso baralhar-me um pouco.

—Sem problema, Julius, é claro como a água! Mas continua, fala-me um pouco mais do assunto.

—Pois é para lá que eu vou. Continuo com o matrimónio, que é, sem dúvida, uma grande instituição —mas só serve para aqueles que querem viver numa grande instituição. Ao princípio, alguns pensam que é lá que querem estar, mas com o tempo dão-se conta de que, embora gostem da instituição, precisam de conhecer outras instituições e não ficar sempre na mesma; de facto, aconteceu-me muitas vezes. Também te direi, e muitos pensam como eu, que o matrimónio acaba com o amor a longo prazo. Sobretudo com aquele romance do início, quando tudo é cor-de-rosa.

Sem ir mais longe, tive muitos romances. E o matrimónio acabou sempre com eles. Não tanto pela instituição, mas pela mulher com quem estava casado no momento. É que se não tens o romance com a tua senhora, torna-se difícil compatibilizá-lo com outra mulher e com a tua própria esposa, que seria o ideal. E quanto ao amor, só te posso dizer que o verdadeiro, o autêntico amor, é muito difícil de encontrar, pois só aparece uma vez na vida —o problema é que depois não há maneira de nos vermos livres dele! Não sei muito bem se entendes tudo o que te estou a dizer, mas bom, já me conheces. O meu forte é centrar-me no absurdo das coisas, é por aí que eu vou, e foi assim durante toda a minha vida; agora, na minha idade, já é tarde demais para mudar.

—Sempre na tua, amigo! Tudo o que me contas parece-me muito interessante e não tem nada de absurdo, pelo menos para mim; se outros pensam o contrário, o problema é deles! E agora, para mudar de assunto, gostava que falássemos de dinheiro, que te parece?

—Muito bem, gosto de dinheiro! Já sabes que sempre tive fama de tacaio, e é verdade, não o vou negar, mas bom, é que não gosto de esbanjar, pois ganhar dinheiro custa muito trabalho; a mim, pelo menos, custou-me um grande esforço. Mas também não creio ser egoísta. Conformo-me com ter o imprescindível para viver bem, pequenas coisas que me façam desfrutar de um bem-estar merecido: um pequeno iate para ir à pesca, uma pequena mansão de três andares com jardim e piscina, uma pequena fortuna com várias centenas de milhares de dólares na conta corrente. Enfim, rapaz, pequenos prazeres mundanos para aproveitar a vida, que é curta e há que aproveitar o tempo. Tu entendes-me!

—Claro como a água! Que tal se me falares agora do ser humano?

—Assunto complicado, certamente! Como poderás entender, sobretudo pela minha idade, pude conhecer ao longo de tantos anos uma enorme quantidade de pessoas de todo o tipo: brancos e negros, ricos e pobres, espertos e totós, impresentáveis e gente encantadora. As conclusões que pude tirar, de forma geral —já que seria muito longo aprofundar na personalidade específica de cada um— são as seguintes: Um dos aspetos mais determinantes que observei em muitos indivíduos que conheci é que, quando alguém parece idiota, geralmente é porque é idiota, e isso pode comprovar-se no momento em que, mais cedo ou mais tarde, age como um autêntico idiota. Também consegui distinguir muito bem os que são parvos, que são aqueles tipos que nunca se riem de nada, mesmo que lhes contes algo tremendamente engraçado, e igualmente, no lado oposto, sei descobrir os imbecis, que são aqueles que se riem de tudo, mesmo que lhes digam coisas que não têm piadinha nenhuma. Há também outra classe de indivíduo, que poderíamos definir como ignorante, que costuma ser muito perigoso quando o tens por perto, sobretudo quando exerce como tal: é aquele que, em vez de ficar calado, embora dê a sensação de ser imbecil, prefere abrir a boca e dizer uma asneira para demonstrar que, efetivamente, é um autêntico néscio. Eu conheci muitos, mas é uma lista tão longa que seria interminável e precisaríamos de vários dias para a completar.

—Ah, ah, ah, de certeza que sim, eu também podia acrescentar mais nomes para tornar a lista ainda mais comprida! Bom, Julius, passemos a outro tema: o que me podes dizer da velhice?

—Primeiro, que é uma chatice, e como já estou nela sei muito bem do que estou a falar. Mas bom, é a lei da vida e não há outro remédio senão aceitá-la. E quanto às minhas experiências como membro já permanente da terceira idade, o que te posso dizer é que ser velho significa ter cada dia mais experiência e menos cabelo. Ter mais ataques cardíacos do que ereções e também que a coisa mais porca que podes fazer com a tua esposa é ela fazer-te a manicure, ou tu a ela. Que tal se fizermos uma pausa e continuarmos a falar amanhã? Creio que tenho um pouco de sono…?

Paquito, ao regressar à realidade, recupera o seu nome verdadeiro: o senhor Francisco. Também ele pertence a essa terceira idade de que fala Julius, embora não o saiba, ou não o queira aceitar. É feliz a viver nesse passado que para ele é real, embora tenha ficado para trás há anos, como um sonho do qual não quer acordar.

—Paquito, gostavas de ser ator?

—Adoraria, Julius, mas nunca representei na vida!

—Não te preocupes, homem, não é muito complicado!

—Acho que sou um pouco trapalhão para representar!

—Nada disso, Paquito, é só uma questão de querer. No início eu não fazia a mínima ideia de como falar nem de como me mexer, sentia-me ridículo, mas aprendi num instante!

—Se tu o dizes, Julius, eu acredito, o mestre és tu! —Ora aí está, rapaz, quem disse medo?

—E o que é que tenho de fazer?

—É muito fácil! Vamos ensaiar uma cena do filme Duck Soup (Sopa de Ganso no Brasil), e tu farás o papel do Chico para me dares a réplica no diálogo. Aqui tens a folha com o texto escrito, vais lendo. Eu não preciso, tenho uma excelente memória para os diálogos e lembro-me perfeitamente do dia em que rodámos a cena. Tu também o saberás de cor quando o tiveres repetido cem vezes, pelo menos. Ah, ah, ah, estou a brincar, homem…! Estás pronto, Paquito? 

—Sim, Julius, quando quiseres!

(*)

  • Groucho: Bom, e quantos homens há no seu exército?

  • Paquito (substituindo o Chico): Pois, temos mais de cem mil homens.

  • Groucho: Isso não é justo, estamos em inferioridade, já que nós só temos cinquenta mil, mais ou menos.

  • Paquito: Está bem. Para sermos justos, damos-lhes vinte e cinco mil e assim ficamos quites. 

  • Groucho: Isso mesmo, cinquenta por cento para equilibrar a coisa. E pode dizer-me quantos batalhões têm? 

  • Paquito: Bom, dir-lhe-ei que temos dois batalhões e um tipo que parece chinês e que anda por sua conta.

  • Groucho: Gostava que continuasse a trabalhar para mim; assim, podia pedir-lhe que se demitisse ou até despedi-lo quando me apetecesse. E como estão de cavalaria?

  • Paquito: Temos mais de cinco mil homens, mas cavalos —o que se diz cavalos— não temos nenhum.

  • Groucho: Pois que graça! Comigo é precisamente o contrário, ou seja, cinco mil cavalos, mas homem nenhum. 

  • Paquito: Olhe, ocorre-me uma ideia! Que os seus homens montem nos nossos cavalos e assim resolvemos o problema. Acho que seria uma boa solução.

  • Groucho: Na verdade, não é má ideia. E se os seus cavalos se cansarem, podemos fazer ao contrário e deixar que os cavalos cavalguem os nossos homens para variar (Paquito assente fitando o Groucho, seguindo as indicações que tem no papel, mas põe tanta ênfase na expressão do rosto para dar a entender o sim, que fica com uma cara de tonto chapado, muito parecida às que o Harpo costumava fazer em algumas cenas, pelo que lhe saiu, sem querer, uma imitação perfeita do irmão "mimo" dos Marx). Não me importo de lhe emprestar os nossos cavalos, mas têm de me prometer que vão fazer as respetivas manobras; caso contrário, não há negócio.

  • Paquito: Oh, claro, com certeza! Fazemos manobras com os cavalos todas as manhãs, exceto quando chove, porque não temos guarda-chuvas suficientes para tapar todos os animais.

A cena termina e Paquito olha seriamente para Groucho, aguardando com ansiedade a opinião do mestre.

—Bravo, rapaz, não te enganaste numa única frase! Acho que podias ter sido um excelente ator. Vives a personagem. E agora que o Chico não me pode ouvir, acho que o fizeste melhor do que ele.

Paquito sorri e o seu rosto exprime um estado de total satisfação ou felicidade, quiçá uma mistura de ambas. Desta forma, e de novo sem esforço nem procura explícita, volta a ficar com a mesma cara de bobo consumado, numa nova e bem-sucedida imitação do Harpo.

—Oh, obrigado, Julius! Vindo de ti, é um grande elogio!

—Ora essa, homem, não sejas modesto! Entraste no papel como um autêntico profissional da representação. O meu irmão Chico era bastante informal, por isso às vezes não levava o trabalho muito a sério e tínhamos de repetir as cenas várias vezes porque se enganava com frequência. O Harpo, porém, era mais profissional; comportava-se como tu, com seriedade e muita responsabilidade no trabalho. Tu pareces-te com ele nesse aspeto.

—Obrigado, Julius, é um grande cumprimento da tua parte!

—Deixa lá de me agradecer, Paquito, pareces um disco riscado, homem!

E foi assim que Paquito tornou realidade um dos seus sonhos mais desejados. Foi uma noite maravilhosa em que a Fada Madrinha da Fantasia —outras vezes tão esquiva, sobretudo para quem tem a imaginação de cimento— marcou presença e, com um simples agitar da sua varinha mágica, permitiu a estreia de Paquito como ator. Quem diria! Nem mais nem menos do que partilhar o palco com o grande Groucho Marx! Um privilégio de que poucos neste mundo —nem sequer no dos sonhos— se podem gabar.

   Bons sonhos, Paquito!

(*) Paquito recorda-o à sua maneira, por isso o diálogo do filme e o que aqui se detalha não são iguais, mas é o que o tempo tem: tudo muda. Além disso, Paquito sempre gostou de dar rédea solta à sua criatividade para acrescentar chalaças (No calão teatral, designam um acrescento de palavras ou graças inventadas pelo ator, que as inclui no papel que representa). São textos ou diálogos que não constam no guião e que, neste caso, o ator Paquito improvisa para brilhar. Sim, o Paquito é assim! Por vezes, é um recurso que também se costuma utilizar quando o intérprete se esquece do texto e não tem outro remédio senão improvisar para sair do passo, usando algo criativo da sua própria colheita.

V I

As longas conversas entre Paquito e o seu amigo Julius continuaram por muitos dias e, à medida que os meses passavam, Paquito passava mais tempo a falar com o amigo e menos tempo a ser o senhor Francisco. Gostava mais da realidade da sua imaginação (que era falsa) do que da sua vida autêntica, que era, obviamente, a verdadeira.

E a fantasia seguiu o seu caminho —é o que tem: continua, continua e continua enquanto se lhe dá corda, até que um dia acaba, porque a corda se gasta ou se parte.

Julius cavalgava sem descanso no dorso da sua verborreia incontrolável e da sua dialética eterna; era ele, sem dúvida, quem dava o tom. Naquele cenário impossível de guião ilusório, cada intérprete estava consciente do seu papel, desempenhando-o com plena eficácia. 

Um dá o tom —o génio, Groucho; o seu forte é a palavra, falar sem parar. O outro é o aluno aplicado —o ouvinte, Paquito; o seu forte é ouvir em silêncio. E para ambos, o incentivo partilhado é desfrutar do momento, do instante irrepetível que talvez nunca mais se repita, porque a enteléquia tem disso: embora seja irreal e não possa existir na realidade, às vezes aparece noutra dimensão, mas manifestando-se à sua maneira genuína —ou seja, tal como chega sem avisar, também se vai embora sem se despedir…

Já te disse na altura, meu caro amigo, que comigo ias aprender bastantes coisas relacionadas com a existência humana. E note-se que não quero que faças uma interpretação errada das minhas palavras, para que não penses que sou uma pessoa com excesso de prepotência, que se gaba de ser inteligente —o que sou, para que nos vamos enganar! A falsa modéstia é absurda e uma pessoa tem de saber quais são as suas forças para as poder espremer ao máximo. Se tu mesmo não te valorizares, será difícil que o próximo o faça. Mas bom, ao que íamos: o que eu quero, sobretudo, é transmitir-te a minha experiência, essa que a vida me inoculou ao longo de muitos anos a caminhar pela senda da sobrevivência. Eu, sem dúvida, aproveitei o conhecimento adquirido e, por isso, aproveito este momento para te ensinar aquilo que possa ser-te útil. Já sabes que o tempo, se o aproveitares bem e aprenderes com os erros cometidos, traz-te sabedoria. O contrário não faria sentido, ou seja, seria completamente absurdo soprar velas de aniversário com o único objetivo de ficar velho —isso é coisa de parvos. Digo-to porque nem sempre o ser humano aproveita os ensinamentos extraordinários que o passar dos anos vai trazendo no curto caminho da existência. E precisamente por essa brevidade, não se pode perder nem um segundo a desperdiçar o ciclo de vida fazendo estupidezes para nadar nas águas da ignorância. Infelizmente, isso acontece a muitos que envelheceram e continuam permanentemente a flutuar no enorme mar do desconhecimento. Por sorte, esse não é o meu caso.

Algumas das minhas frases foram interpretadas de diferentes formas, já que cada um é livre de dar o seu significado particular ao que ouve. Muitos viram nelas apenas uma forma de dizer algo engraçado; outros, no passado, não as entenderam; e muitos, no presente, também não as entendem nem as entenderão nunca, precisamente pelo que te dizia antes: porque são nadadores em águas da incultura e da falta natural de uma mínima inteligência, sobretudo emocional.

E muitos outros, por sorte, souberam entender o que eu pretendia transmitir. E entre essas pessoas, espero que te encontres tu, meu caro amigo Paquito. 

Além disso, é para isso que eu estou aqui: para esclarecer qualquer dúvida que tenhas, sempre na medida das minhas possibilidades. Pois embora a vida me tenha ensinado muito, exercendo como boa mestra, e sendo eu um aluno aplicado, não me considero de todo um sábio; isso deixo-o para outros que julgam sê-lo, embora já conheças o ditado: “Diz-me de que te gabas e dir-te-ei do que careces”. E que ainda por cima, no auge do desplante, pensam que são perfeitos. 

E, neste sentido, quero dar-te um conselho, meu caro amigo: 

Jamais te fies de alguém que é perfeito (ou que acredita sê-lo)! 

De certeza que, no fundo do seu ser, esconde algo estranho, por isso afasta-te dessa pessoa o mais rápido que puderes e põe entre ti e ela a maior distância de que fores capaz! 

Vou fazer uma pequena trégua para recuperar o fôlego e depois continuo, porque quando embalo não paro e, às vezes, de tanto falar sem me deter, a minha capacidade respiratória diminui consideravelmente. Algo que também me costuma acontecer quando subo ao quinto andar de um prédio sem elevador e as escadas, egoístas, me espremem todo o ar que me resta nos pulmões. Tenho de parar várias vezes para recuperar oxigénio antes de chegar ao maldito quinto andar ao qual, diga-se de passagem, só tenciono aceder quando, do outro lado da porta, se encontra uma bela dama à minha espera, geralmente com pouca roupa. E, além disso, “não pensa mal de mim, porque sabe perfeitamente que o meu interesse por ela é puramente sexual”. A senhora (ou a rapariga, não gosto de discriminar as mulheres por razões de idade) tem noção ao que eu vou e ela também sabe o que quer —ou seja, desculpa-me se sou demasiado direto: praticar a nobre arte do coito! Pois de outra forma não se entenderia que o meu corpo se prestasse a fazer o esforço enorme de subir os cinco andares a pé, pondo ainda por cima em perigo o meu ritmo cardíaco, já de si alterado pelas mazelas da idade, com o acréscimo natural da aceleração pela emoção do momento —algo compreensível quando, em breve, se vai copular com uma fêmea de… comer e chorar por mais!


Bem-vindo a Conversas com Julius.

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Se gostas do que lês, deixa um comentário ao final de cada capítulo. Adorarei conhecer as tuas impressões, as tuas teorias e partilhar esta viagem contigo.

Obrigado por estares aqui.

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Pequena pausa de recuperação. 

Tomar ar…

Respirar fundo…

Regularizar pulsações…





E de novo Julius, uma vez recuperado (ainda que ligeiramente, já que a certas idades os períodos de recuperação de qualquer atividade, seja física ou intelectual, vão aumentando consideravelmente), continua a sua fecunda palestra.

Ouve com atenção! Uma vez disse algo que se tornou muito famoso: 

“Minhas Senhoras e meus Senhores, estes são os meus princípios; mas, se não gostarem, tenho outros!”. Pois bem, o que eu queria dizer é que muita gente age com uma total falta de ética e envolve a sua passagem pelo planeta Terra com um manto de frivolidade e hipocrisia que os faz mudar de opinião continuamente, agindo como cataventos que se movem ao sabor do vento de outrem ou das circunstâncias. Pois muitos utilizam os seus princípios (ou a falta deles) como uma simples moeda, em função dos benefícios que possam obter em troca. É uma forma de troca interessada muito habitual na sociedade moderna.

E falando de hipocrisia, cheguei a experimentar na pele a falsidade das pessoas: um dia quis tornar-me sócio de um clube com o meu nome real, ou seja, Julius Henry Marx, e não me admitiram porque, na altura, não sabiam quem eu era. Desconheciam que por trás daquele nome se escondia uma personagem famosa e rejeitaram-me. Mais tarde, quando se deram conta do erro, contactaram-me convidando-me muito amavelmente para ser sócio do ilustríssimo “Friars Club de Beverly Hills”. Os hipócritas tinham consciência de que ter entre os seus membros alguém famoso como eu lhes seria sempre rentável a nível publicitário, mas o que me demonstraram foi que a pessoa não lhes interessava para nada; apenas valorizavam o facto de eu ser alguém conhecido. Daí a minha resposta ao seu “amável” convite: Nunca pertenceria a um clube que admitisse como membro alguém como eu!

Podia continuar a contar-te muitas outras coisas, amigo, mas vejo que tens cara de estar cansado e será melhor deixarmos para amanhã. Eu também preciso de descansar, mas antes uns últimos apontamentos sobre o comportamento dos seres humanos: quero falar-te das superstições e dos equívocos, que são conceitos distintos apesar de terem certa relação. Pois no que toca ao primeiro, há certo tipo de crenças —e é só um exemplo— como a de que o número 13 ou os gatos pretos dão azar. Obviamente, isso não é verdade; pensar assim leva-te, sem dúvida, ao erro. E se transpuseres isso para decisões importantes da tua vida onde te deixas levar por fetichismos, acabarás por cometer grandes equívocos que, com toda a certeza, te trarão desgostos sérios. No fundo, o que quero que entendas é que, na vida e à hora de tomar decisões importantes, não nos podemos deixar arrastar por crenças irreais, pois são adulteradas ou, simplesmente, estúpidas. Por isso, quanto às superstições, o que eu penso é que “Se um gato preto se cruza no teu caminho, isso apenas significa que o animal vai a algum lado”; ou seja, essa coisa do azar é uma solene tontice. E quanto ao assunto dos erros, só te posso dizer algo que ouvi ao meu bom amigo Charlie Chaplin —um homem, sem dúvida, de uma inteligência privilegiada— quando disse algo como: “Gosto dos meus erros, não quero renunciar à deliciosa liberdade de me enganar”. Subscrevo isso a cem por cento, porque não há independência maior para um ser humano do que exercer sem limitação alguma o seu direito ao livre-arbítrio (claro que sem invadir o do vizinho). Outra coisa é acertar ou falhar; e, no último caso, assumir a responsabilidade pelas consequências das tuas falhas, mas nunca pagar pelos erros que outros tenham cometido em teu nome por lhes teres deixado tomar decisões por ti. Pois se agires assim, ter-te-ás tornado, sem te dares conta, numa marioneta; terás deixado a tua vida nas mãos do próximo, que moverá os fios a seu bel-prazer.

Estás de acordo, amigo?

Paquito não respondeu porque, sem dar por isso, tinha adormecido; e nesse momento Julius percebeu que tinha falado mais do que devia, comprovando mais uma vez que a sua loquacidade era realmente inesgotável.

Bom, amanhã continuamos, amanhã será outro dia! Pensou o homem do bigode preto e do charuto apagado, fazendo uma das suas caretas habituais, acompanhada do seu característico movimento de pálpebras.

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Fran Laviada

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